Agora sim.
Agora era a hora, pensava bem. Se caso quisesse perder a virgindade agora seria a hora. Não porque ser virgem propriamente era ser uma constante em sua vida, mas porque ser virgem de soluções era.
Ele se levantou, calçou as meias quase imundas e os sapatos esburacados. De frente para o espelho percebeu a barba mal feita e preferiu deixar por isso mesmo. Arrumou a gola da camisa e botou o paletó por cima, mesmo sem gravata se sentia mais formal o que significaria para o seu cérebro meio usado que estava mais apto a participar de uma 'discussão'. Sendo aquilo o que fosse. Não tinha medos ou ansiedade por estar a caminho de algo que nunca tinha presenciado e não seria diferente vindo dele, esse ser tão despreocupado com o viver em si.
José se recolheu um instante, pensou que talvez devesse por gel no cabelo. “Ah sim porque gel deixa os côro vistoso”, e foi-se vestido para matar – mais neurônios.
No caminho enquanto caminhava apressado como sempre na direção do ponto de ônibus, um carro imenso e com vidros escuros passou por uma poça d'água deixando todo o vestuário de José encharcado, para não dizer imundo. O querido continuou como sempre, sem perceber muito ou ligar muito para o acontecido, aquilo acontecia com ele. O cabelo ainda estava em perfeito estado em se tratando de um cabelo duro feito um cabelo que fica todo grudento com gel comprado na farmácia por dois contos. José sabia gastar só com o que precisava e hoje ele saberia gastar as cordas vocais com exatamente aquilo que precisava: dinheiro. Pelo menos era nesse mesmo fim onde os pensamentos do nosso querido José sempre caíam.
José subia no ônibus enquanto percebia que o mesmo estava para lotar. Se enfiava devagar entre os corpos que como o dele estavam ali para ir para algum lugar e se encaminhou até o senhor cobrador que recebia os dois reais em moedinha e fazia questão de contar uma por uma, já que vinham de José. Ele era conhecido por ter burlado o sistema algumas vezes, não por safadeza mas porque precisava escolher entre comer aquele p.f. na esquina do serviço ou pagar a condução. José não achava lugar para sentar, mas já estava acostumado. Prendeu a pastinha gasta que havia ganho do compadre Joaquim que usava em ocasiões especiais para parecer mais importante entre as pernas e colocou as duas mãos calejadas no cabo de metal que esta acima da sua cabeça, de frente pra ele a janela e entre ele e a janela duas senhoras gordas tentavam dividir o acento. José procurava olhar para fora com medo de encarar as senhoras que de tão gordas eram assustadoras em sua abundância de carne. Isso fazia José pensar em comida, a barriga roncava.
José ia. Imóvel dentro do ônibus ele ia.
Ao chegar onde José queria que chegasse, ele alcançou modestamente sua pasta entre as pernas e saiu pelas portas que abriram violentamente, nem mesmo tinha tocado os pés incertos no asfalto imundo e o ônibus arrancava feito um desesperado para não ter que parar no sinal vermelho logo a frente. José não percebia mas era um sortudo por não ter tido o pé arrancado fora nessa brincadeira.
As casinhas eram todas meio cinzas. Um mal de São Paulo quando a cidade não está pronta para turista ver. José caminhava atento aos números que pareciam ficar cada vez mais difíceis de serem percebidos, seus olhos cheios d'água por causa da fumaça da rua. José notava que enquanto caminhava sua barriga parecia roncar ainda mais. “Ah, mas vai que lá tem algum trocinho pra beliscar, não vou gastar o dinheiro da condução de vorta nisso”. José queria chegar logo lá.
Finalmente, depois de muito caminhar o número 2443 aparecia em uma esquina entre uma porta e outra de madeira gasta e imunda em um pequeno prédio cinza e com a pintura toda gasta de anos de descuido. Bastava agora achar uma campainha, coisa impossível. Procurou, olhou, tentou ate ver se alguma janela estava aberta, mas nada encontrou. Decidiu então bater à porta e o fez, assim que terminou alguém prontamente abriu a abriu do lado direito assustando José que tinha dado os três toques tímidos na porta do lado esquerdo. Um senhor mais velho e com cara de desconfiado o chamou para entrar. Mas antes perguntou a José:
-Seu nome, meu filho?
-José, sinhô.
-Entre.
Ele entrou.
-Sente-se aqui, já volto já.
O senhor apontou para um banco com almofadas surradas encostado numa parede cheia de marcas de dedo. No teto uma única lâmpada estava agarrada a um fio elétrico que com o vento trazido lá de fora e com José, balançava de um lado para o outro deixando a luminosidade do lugar toda comprometida por causa de tal acontecimento. Numa mesa que parecia bamba, também bem descascada e triste, uma mulher mais jovem que José organizava alguns papéis e mal havia notado a presença do pobre ali, ele tentava sorrir assim que ela parecia olhar pra direção dele, mas não parecia receber resposta. José continuava calado observando a lâmpada que aos poucos parecia voltar a sua imobilidade não natural. Logo notou um relógio que marcava cinco para às seis. José respirava. Profundamente.
Algum tempo depois o senhor aparecia na fresta de uma porta que se abria ferozmente atrás da dúbia secretária rechonchuda, seu olhar era claro e dizia “venha cá”, José se levantou rapidamente e caminhou até sua direção. Estava com tanto medo que precisava respirar ainda mais afobadamente para que conseguisse manter-se são, sem nem mesmo entender o que estar são significava. O senhor desconfiado fechou a porta acompanhando José até uma cadeira qualquer que ali estava e foi se sentar de trás de sua mesa bem parecida a da moça na tal recepção. Seus olhos inspiravam algum terror.
Então me diga, o que quer?
-Bom, sinhô... É o que já havia dito pro rapaz que me parou na rua. Tenho dois filhinho e não tenho muito da onde tirar as coisa que eles precisa.
-Sim, e de quanto estamos falando aqui?
-Num sei não, sinhô.
-Eu posso conseguir dois mil reais...
-Dois mir, sinhô?
-Dois mil. É tudo o que eu consigo.
-...
-É pra hoje, meu querido.
José se enchia ainda mais com precipitação, seus olhos se afogavam em água novamente e suas mãos começavam a espremer com força a pasta surrada que agora descansava sobre seu colo. Os lábios pareciam querer produzir algum movimento, mas a sensatez para tal não servia os propósitos de José. Ele cedia. Dizia que sim com a cabeça e por um instante apenas via o rosto de sua esposa e das duas crianças que estavam a sua espera naquele barraco de cimento que mais parecia polvilho azedo. Seus olhos estavam cheios de esperança, mas a dor que essa espera o trazia era maior do que aquela que ele suportaria ali, naquele mesmo prédio de paredes engorduradas e lâmpadas agitadas. Estava certo disso e estaria até o fim.
José enfrentaria tudo de barriga vazia.
Quatro da manhã, segunda-feira de uma semana cinza, um rapaz de barba mal feita e olhos preocupados bate à porta de um barraco de cimento. Uma mulher no alto de seus trinta anos que não conseguia dormir há dias preocupada com o paradeiro de seu marido aparece e ao ver que aquele não era José, deixa escapar uma lágrima azeda do canto do olho esquerdo.
O rapaz a entrega um envelope, puxa o boné para frente cobrindo parte do rosto e caminha para longe. Dentro do envelope notas frescas como fresca era a manhã.
Dois mil reais.
Numa nota escrita à mão um recado: José Relicário Norberto da Silva nos pediu que esse dinheiro fosse entregue à senhora Maria Neide Norberto da Silva e seus filhos.
Passar bem.


4 comentários:
Nunca havia lido teus contos, mas você é depressiva, não é?
Sr. Anônimo, eu não respondo comentário de gente sem nome. Passar bem.
E põe triste nisso!!! Fez bem em não responder para anônimo! Aliás, você se deu ao trabalho de responder!
Bjs
Olá minha linda!Vc é mesmo muito inteligente!Gostei do conto e da resposta ao sr.anônimo.
Beijos!Amei seu conto,como todos os outros!
Continue sempre escrevendo!
Te amo!
Beijos!
mama
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