Tuesday, August 12, 2008

sobre a compreensão


Ela queria ser novamente enaltecida.

Era de costume, tudo que fazia, fazia pra que ele percebesse. Ela não tinha nem como tentar de outro jeito porque já estava tão impregnado nela essa vontade exarcebada de querer fazer dele um homem feliz que já havia esquecido do propósito original. Ele não a entendia, tentava, mas não conseguia. Todo dia eles acabavam em algum bate-boca que não tinha final feliz, era mesmo um terror, ela pensava, "nada funciona com ele" porque ela fazia tudo para deixá-lo feliz e feliz ele não o era, mas mal sabia ela que não era culpa de ninguém, era fato.

Os dois se amavam num amor quase sem tom, sem misericórdia e sem compreensão. De fato. Ela queria beijo na boca de língua pesada, molhada com gosto de desejo e mão também pesada no pescoço. Ele queria bitoquinhas pra não molhar muito a boca. Logo de cara assim parecia que ele era nojento, e isso é o que ela dizia pra ele em algumas das muitas brigas dos dois, mas ele não era não. Ele entendia o corpo dela de um jeito ímpar e ela o dele, mas constantemente ela deixava pra lá pra novamente fazê-lo feliz, o que é claro não acontecia.

Os dois trabalhavam muito, ele era entregador de pizza e cuidava de cachorros, ela era analista de sistema em uma firma de computadores. Sim, ela ganhava mais que ele e mesmo assim fazia de tudo na casa, limpava, cozinhava, lavava roupa, organizava tudo. Ele nunca percebia que ela fazia tudo isso pra chamar a atenção dele e era por isso também que ela nunca estava feliz.

Os dois tinham um filho que apareceu no momento certo porque os dois planejaram
juntos tê-lo, mas ninguém sabe como porque nunca se entendiam. O nome dele era esquisito, Ronix. O pai do Ronix não queria esse nome horrível, mas ela decidiu e pronto. Vai entender!

Os dois não se entendiam.

Ronix era um menino muito feliz e completamente idolatrado pela mãe e meio deixado de lado pelo pai. Não que o pai não o amasse, pelo contrário, sua forma de mostrar o amor que ele tinha sempre foi ... vamos dizer que distante, do mesmo jeito que não gostava de dar beijos lentos e suculentos em sua mulher.

Ah! Os dois nunca se casaram de fato, moravam juntos há anos em uma casa que pertencia ao pai dele. Ela sempre querendo agradar o marido... Menos na hora de escolher o nome do filho "é mais meu que seu" ela pensava, "então o nome também sou eu que escolho". Os dois não chegavam a conclusão nenhuma.

Logo de cara numa manhã fria de segunda-feira ela acordou doente. Ronix se levantou depressa de seu meio cama e meio berço e veio dar um beijinho na mamãe, o pai cuidava dela trazendo chás e as bolachas favoritas dela, entre um gole e uma mordida ela soluçava por causa do choro. Estava com febre e chorava e ele não entendia porque. Se cansando do barulho infernal dos soluços da mulher, ele perguntou porque ela não parava de chorar pra poder melhorar rápido, prontamente ela começou a vomitar tudo que estava entalado em sua garganta há tanto tempo.

Disse num meio berro, meio choro que tudo que fazia era pra deixa-lo feliz. Tentava agrada-lo de todas as formas e nunca conseguia e que até deixava ele fazer amor e beija-la da forma que ele queria pra que não houvesse nenhum sentimento de desanimo da parte dele. Disse também que não aguentava mais e que sabia até porque estava doente, porque ele não a compreendia. Depois de toda essa verborragia ele se levantou da cama e andou em círculos no quarto olhando pro nada como se ele fosse tudo. Ela continuava chorando - quanta lágrima tinha naquela mulher! - mas agora o som era muito mais suave. Ele voltou à cama e se sentou ao seu lado e simplesmente disse isso:


"eu achei que estivesse fazendo tudo pra te fazer feliz e também nunca entendi porque você continuava assim."

eles nunca se entendiam.



***