Saturday, September 23, 2006

uma prosa prum dia de amanhã...

O cheiro do cabelo molhado dá o tom no chuveiro. Gosto de sentir vibrar nas paredes o baixo certeiro na música que vem do som do quarto. O som que precede o fim é o mesmo que cria o clímax, eu já saquei isso há um tempo... o tempo lá fora não ta bom não. Ta pesado de um jeito que só eu sei, mas é bom tempo pesado, desprende das nuvens a dor que rendia meios seios, agora ela ta em tudo... como é egoísta isso, dividir a dor. Como eu perdi tempo com isso aqui! Só o deus do rock`n`roll sabe o que eu sofri, porque ele sofreu como eu. Sentado na sala de estar de uma casa despedaçada e com cheiro de botijão de gás. Tinha uma época que eu achava que ser diferente era condição necessária pra se existir. Agora eu não sei não. Acho que eu ainda não existo. A vida bate perna lá fora e aqui dentro deixa rastro de coisa bacana. De foto preto e branco e de sépia na varanda do vizinho. Deixa no piano na sala o som tortinho que chega com a noite do sábado, que dizem por aí que é altíssimo o número de suicídios nesse dia tão perdido... tenho pensado muito nisso, não no suicídio, nos índices. O que é um índice? É a contagem de dor por metro quadrado? Que engraçado isso tudo... o frescor na minha boca não vem da menta na pasta de dente, vem da minha boca fervendo de tudo que é vida que bate perna lá fora. Meus olhões no espelho dão medo às vezes. Meu pai dizia que eu precisava de ajuda psiquiátrica... minha mãe me diz que isso tudo é assim mesmo... “é a idade, docinho...”. eu não sei o que eu digo a respeito de mim mesma, acho que to muito perto pra saber, mas sei que não é o tempo não... não retiro nada do que disse, não me despeço de nada do que sinto. Sou um ser-humano com faro aguçado para o desastre e eu me desagrado ao compreender minimamente isso. O tempo lá fora ta pesado. Que bom. De certo eu estarei muito bem muito em breve e daí, vou rir de você que ficou esperando meu fim. Ta fechado? Vamo noutro lugar. Ta fechado também? Ah... o que é que eu falei pra você? Ta tarde, benzinho. Ta tarde pra burrico. O tempo ta pesado aqui dentro, e é bom. Eu sei a dor que don Toninho sentiu quando descobriu que nasceu pra sofrer. Deus! Eu acho que o deus do rock`n`roll também entende o Toninho. Deve até se parecer com ele, corpo pesado, como o tempo aqui dentro, como o tempo lá fora, como o tempo todo, todo dia, toda hora. Eu sei de uma coisa que acho que a Adélia não sabia, o mundo ainda não ta preparado pra doçura. E que que eu to fazendo aqui? Se eu sou assim, toda doce feito torta de limão azeda que tem um doce só dela... o que eu to fazendo afinal? Experimentado a dor na janela...