Monday, December 12, 2005

sonho X realidade

Intencionalmente nós recriamos situações em nossa vida, queremos recolocar novas caras aos bem conhecidos caminhos. Mas ter a coragem e a força de levantar e não só dizer mas agir e saber que "dessa vez tudo será diferente" é o mais difícil. Não quero colocar aqui dicas para te dar um "empurrãozinho" ou te dar aquela sensação de que é tudo rosa e que no fim as coisas vão dar certo, porque essa não é a minha experiência real. Não quero tão pouco, extrair de minha vaidade momentos de êxtase e de conquistas, porque também não vejo nada em minha vida como uma grande conquista, mesmo tendo pessoas ao meu redor que ficam maravilhadas com alguns acontecimentos que marcaram minha existência. Acho que o ser-humano mediano está fadado a falta de vergonha na cara. Digo ser-humano mediano com uma certa culpa pois me coloco nesse emaranhado populoso. Credo! Como tem gente que não sai do lugar, não dá uma guinada, não sonha!
Bom então vamos dividir esse povo! O emaranhado mediano se divide agora e é criado um subconjunto de meio-medianos: aqueles que sonham. Então posso dizer que sou uma dessas. Sonho. E entre esses, alguns passam para a próxima rodada, se jogam no grupo daqueles que conseguem. No grupo dos que brilham. Não pense que estou querendo fazer com que algumas pessoas se sintam más ou incapazes de se realizarem, não é isso! Estou dizendo que existem pessoas para todos os gostos, formatos, tamanhos e ações.
Voltando ao assunto, estou muito pensativa esses dias, procurando razões para andar. Procurando movimentos alheios à minha vontade para poder passar para o próximo grau, o próximo passo dourado. Sinto que esbarramos com pessoas ou fatores que querem sempre nos derrubar mas repito para mim mesma que tudo isso é besteira, afinal fomos criados com corpos e mentes para chegarmos à qualquer lugar que queremos.
Afinal, imagine se o primeiro macaco-homem não tivesse frio e vontade de criar um foguinho para se esquentar? Imagine o que aconteceria se os homens não quisessem descobrir terras mais propícias para o plantio, para se assentarem e construírem vilas e casas com mais conforto e mais possibilidades de criarem seus filhos? Afinal, o que seria do der-humano se não houvessem vontades e sonhos?
Também sei que o sonho pode matar. O sonho de um homem por poder e brilho matou milhões de judeus, negros, ciganos e índios...
Mas o sonho também pode curar. A vontade de um homem de ver seu povo novamente tratado com dignidade acabou com a escravidão, pelo menos legalmente...
Os sonhos e as pessoas que sonham tem o poder da consciência, mais do que qualquer mortal. Conseguem desenhar no éter as nuances de suas vitórias emocionadas e racionais e então podem buscar na terra e com suas próprias mãos as ferramentas necessárias para chegar ao seu objetivo. O que fará desse sonho algo bom ou ruim é medido não pela sociedade, mas sim pelo que há de mais puro e comum onde há um grupo humano: amor. O amor é o melhor termômetro.
Cada vez que entro nesse assunto me atrapalho. Não sei explicar de fato o que vem a ser o amor. Só sinto. E parece uma loucura, mas ele está lá quando há bondade e não está (ou está timidamente) quando há a maldade.
E alguém vem me dizer "certo e errado são relativos"... sim, eu sei!
Mas bom e ruim não são.
O que faz bem e mal é real, tangível, óbvio.
E então passo mais uma vez ao meu momento pensativo. O instante em que sei que algo está apra acontecer mas que só poderá liberar o fogo se eu der a esse sonho alguma ferramenta, um fósforo, dois pauzinhos ou até duas pedras!
Pense nisso!

Thursday, December 08, 2005

Revisitando meu pai.

Quando era pequena meu pai sempre inventava razões para me fazer acreditar que ele era mais jovem do realmente era. Lembro remotamente de meus pequenos pés pisando em poças formadas pela interminável chuva de São Paulo enquanto meu pai segurava minha mão. Olhava sempre para sua pele, morena, escura, cheia de sardas largas, machas de quem tomou muito sol preparando terra para o plantio. Mãos de quem viajou para o Rio de Janeiro sozinho, com catorze anos para trabalhar e estudar. Ele insistia em minha inocência e me contava que aparentava ser mais jovem pois tinha uma saúde de ferro! Ele me convencia. Tinha um super orgulho daquele velhinho cheio de energia e que se movimentava como um gato, mesmo com quase oitenta anos! Ele me ensinou a acordar cedo, toda manhã - até aos domingos! Incentivava minha criatividade e a raiva apaixonante contra toda injustiça. Certa vez, quando eu já era um pouco mais velha encontrei umas fotos dele em Cuba. Perguntei a respeito mas nunca ouvi uma resposta. Ele me ensinou a ser discreta. E eu aprendi a usar camisetas do Che Guevara. Foi com ele.
Quando começamos a brigar, naquela época em que o ser-humano por alguma razão hormonal rejeita qualquer opinião oriunda de seus pais, eu o via de uma forma mais bruta. Ele era um homem meio burro para mim. Não culturalmente mas sim pela diferença de sua geração. Mas eu o amava. Eu gostava de sentar ao lado dele e ouvir aquelas músicas estúpidas que não falavam nada para mim, mas que eram o mundo para ele. Eu ouvia suas histórias, de como ele conquistou multidões com seus discursos inflamados sobre a psique (ele era psiquiatra), de como ele inocentou criminosos que mereciam a vida como qualquer outro ser (ele também era advogado!) e de como ele empobreceu por não cobrar de seus clientes esse trabalho para livrá-los de seus problemas. Ele tinha seu orgulho tão cheio de brilho.

Ainda me lembro de quando descobri que ele estava doente. Ele já havia percebido, mas não contou para ninguém, nem para minha mãe.

Ainda me lembro de como ele envelheceu 30 anos em apenas 12 meses.

Às vezes precisamos revisitar situações e vidas que vivemos para entendê-las das formas mais variáveis. Precisamos olhar pelos prismas possíveis. No meu caso, existem alguns momentos em que não consigo ainda entender o ponto de vista de quem me criou, de quem me deu amor - aliás, muito amor - desde os meus primeiros dias. Não entendo razões, motivos, representações e alienações. E talvez essa seja a verdade que vou encontrar em alguns anos: que nunca irei entender nada.

Tuesday, December 06, 2005

Bandidagem desse coração

Porque você me diz que não há mais saída quando sabe que na próxima semana irá esquecer de tudo e voltar à velha e estúpida rotina de sempre? Existe alguma maneira de seu dia ser mais viável? Você se dá o espaço necessário para simplesmente deixar estar e curar esse coração todo remendado sem esperança?
Será que estou perguntando demais quando deveria perguntar de menos? Já que nem você consegue responder suas próprias dúvidas sem fim! Sempre achei um verdadeiro desperdício criar refúgios em nossos dias para camuflar nossas emoções, deveríamos sempre expor, de uma maneira muito singela e delicada tudo o que deveras mexe com nossa cabeça. Não há nada de errado em quebrar a cara de vez em quando! Quando quebro cara sempre vou à clínica imaginária do Dr. dos Sonhos e pesso para ele me recompor. Colho nas árvores do bosque da realidade pequenas flores feitas de música e mordo a fruta da loucura sempre que estou melancólica. E você me diz "tá vendo! você também fica melancólica!" e eu respondo que é claro! Todos ficamos! O que não dá pra fazer é se esconder atrás de meia dúzia de mentiras e deixar com que meia-dúzia de picuinhas emocionais derrubem toda a vida que há em seu peito!
Não sei se sou sem jeito, mas gosto de falar com boca grande! Como sempre falei... ou melhor! Como sempre escrevi. Boca grande e nariz grande pra cheirar e farejar tudo o que há nessa cabecinha pensante que pode fazer bem para alguém. Sim, vivo para poder fazer você se sentir melhor e então pare já com isso! Crie coragem e jogue pela janela essa mala cheia de ilusão! Deixa correr pelo ralo essa água suja, repleta de protozoários de rancor. Para de contar nas estrelas quantas vezes você desejou e não teve. A vida não se conta em estrelas, e sabe porque? Porque as estrelas morreram e você está vivo!
E se mesmo depois de tudo isso, você não entendeu o que quis dizer, então me conceda seu perdão por essa minha derradeira vontade de fazer você sair dessa fossa. É o meu traço de bandidagem do coração que fala mais alto.