Quando era pequena meu pai sempre inventava razões para me fazer acreditar que ele era mais jovem do realmente era. Lembro remotamente de meus pequenos pés pisando em poças formadas pela interminável chuva de São Paulo enquanto meu pai segurava minha mão. Olhava sempre para sua pele, morena, escura, cheia de sardas largas, machas de quem tomou muito sol preparando terra para o plantio. Mãos de quem viajou para o Rio de Janeiro sozinho, com catorze anos para trabalhar e estudar. Ele insistia em minha inocência e me contava que aparentava ser mais jovem pois tinha uma saúde de ferro! Ele me convencia. Tinha um super orgulho daquele velhinho cheio de energia e que se movimentava como um gato, mesmo com quase oitenta anos! Ele me ensinou a acordar cedo, toda manhã - até aos domingos! Incentivava minha criatividade e a raiva apaixonante contra toda injustiça. Certa vez, quando eu já era um pouco mais velha encontrei umas fotos dele em Cuba. Perguntei a respeito mas nunca ouvi uma resposta. Ele me ensinou a ser discreta. E eu aprendi a usar camisetas do Che Guevara. Foi com ele.
Quando começamos a brigar, naquela época em que o ser-humano por alguma razão hormonal rejeita qualquer opinião oriunda de seus pais, eu o via de uma forma mais bruta. Ele era um homem meio burro para mim. Não culturalmente mas sim pela diferença de sua geração. Mas eu o amava. Eu gostava de sentar ao lado dele e ouvir aquelas músicas estúpidas que não falavam nada para mim, mas que eram o mundo para ele. Eu ouvia suas histórias, de como ele conquistou multidões com seus discursos inflamados sobre a psique (ele era psiquiatra), de como ele inocentou criminosos que mereciam a vida como qualquer outro ser (ele também era advogado!) e de como ele empobreceu por não cobrar de seus clientes esse trabalho para livrá-los de seus problemas. Ele tinha seu orgulho tão cheio de brilho.
Ainda me lembro de quando descobri que ele estava doente. Ele já havia percebido, mas não contou para ninguém, nem para minha mãe.
Ainda me lembro de como ele envelheceu 30 anos em apenas 12 meses.
Às vezes precisamos revisitar situações e vidas que vivemos para entendê-las das formas mais variáveis. Precisamos olhar pelos prismas possíveis. No meu caso, existem alguns momentos em que não consigo ainda entender o ponto de vista de quem me criou, de quem me deu amor - aliás, muito amor - desde os meus primeiros dias. Não entendo razões, motivos, representações e alienações. E talvez essa seja a verdade que vou encontrar em alguns anos: que nunca irei entender nada.
Thursday, December 08, 2005
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5 comentários:
Flor... vc é uma pessoa de sensibilidade incrível! Tenho certeza de que seu papai sabia que você compreenderia e guardaria no coração tudo aquilo que ele te ensinasse ou simplesmente compartilhasse com você. Que as palavras deles não seriam perdidas, vazias. Vejo isso nesse texto lindo, que também me fez repensar a importância de valorizar sempre quem a gente gosta!
Um big beijo e parabéns pelo seu talento!! Te adoro! :o)
vc me fez chorar!
:)
Lice,Lice...
Cada vez que leio alo que vc escreveu sobre seu pai me emociono, é lindo, lindo mesmo ver um amor assim, uma saudade assim.
Eu choro, talvez sentindo algo próximo (embora com bem menos intensidade aposto) do que você sente, talvez não sei... Mas o fato é que é muito, muito especial este amor, este sentimento.
Muitos beijos neste teu coração tão especial
Do aluno que te admira e ama muito
Gabi!!
Nossa Alice que lindo!
Te achei no blog do Gabriel.
Parabéns pelo imenso talento.
Você realmente é uma pessoa muito especial e iluminda.
Beijos da sua aluna.
Silvia.
Obs. Chorei de emoção.
bom comeco
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