Monday, May 04, 2009

Mundo louco.

Ela, cansada havia parado de chorar finalmente. Com as mangas compridas da camisa xadrez que usava por cima da camiseta larga, enxugava as faces com a mesma calma que não havia sido levada em consideração antes de chegar ali. Seu corpo todo se debruçava sobre aquela mesa de madeira gasta, a mesma que observara aquele mesmo céu de noite cinzenta há tantos anos - talvez décadas - e onde o cachorro cansado da chuva e da falta de atenção momentânea se escondia. Ela percebia as letras cravadas na madeira escura, tranquilamente traçava com o indicador o caminho que o canivete percorrera. Uma lágrima ou outra escapavam enquanto seu olhar atento desarmava sua intenção, deixava com que seu choro agora miúdo se revoltasse por si próprio. 



Ele a observava do outro canto da varanda remoída. Costas apoiadas contra a parede de relevos incertos, braços cruzados, presença indescritível dentro da vida daquela que ali se revelava frágil, esplêndida. Ele evitava olhar diretamente para ela, invés disso procurava alguma coisa no céu infindável para admirar - o que era difícil tamanha a nebulosidade já reconhecida naquela cidade. Seu olhar esverdeado não reconhecia muito mais do que sua falta de força, já havia lutado com todas as armas que havia aprendido a furtar pelo caminho, tinha o peso de sua vida vivida em alguma nota sustenida sem muito conhecimento do porquê e não poderia tentar em vão ajudá-la, e não era à toa que ela sabia em suas entranhas remexidas, em sua pele muito gasta que ele não poderia mudar nada e nunca tentaria...



Não era por isso que ela chorava.



Ele respirava a umidade que já estava no ar, o relento que avisava que chuva estava por vir enquanto as folhas das árvores imóveis sussurravam canções familiares em um silêncio tão almejado por aquele pedaço de terra demarcado por algum engano no nome... dele. Ela finalmente se sentava sobre a mesa, mexia com as mangas agora  molhadas, confusa olhava em volta a procura de qualquer coisa que tirasse da sua cabeça a única coisa que não poderia ter... Ele largava os braços ao lado do corpo, trazia o olhar de volta a ela que supostamente deveria estar bem longe dali.



- Você lembra dessa música?



Qualquer coisa que ele havia dito não fazia muito sentido, mal ouvia qualquer coisa ao fundo muito menos uma música.



- Que música?



O sorriso escondia a verdade por detrás de suas lentes cor de marfim.



- Ah, não me diga que não ouve a música?



A inocência temporária que a censurava não era tão provisória quanto parecia ser já que ele a recriminava por de fato estar sempre tão cegamente em dívida com ele que finalmente nesse instante caminhava à sua direção com o olhar de quem não teme e simplesmente confia.



Tomando sua mão ainda coberto daquele escudo de marfim e agora tão perto que ela conseguia perceber os olhos cansados, a musculatura e pele tão vividas que envolta de um crânio tão pesado davam estrutura aquele homem feito do avesso. Um braço envolta de sua cintura, uma mão segurando a outra que sobre a dele parecia tão delicada...



- Essa música que eu vou dançar com você...



Sob mil olhares escondidos por trás de um véu cinza e sombrio, eles tomavam a quadra como seu salão particular, a chuva aguda começava a cair e em seu ouvido atento ele sussurrava a canção que só se ouvia mesmo quem pudesse acreditar:



- "And I find it kinda funny... find it kinda sad..."



A sensação de conforto e súplica tomava conta do peito dos dois que agora um de frente para o outro poderiam dividir qualquer coisa que fosse juntos pela primeira vez em tanto tempo. 



As duas vozes por fim cantavam juntas:



- "The dreams in which I'm dying are the best I've ever had..."



A chuva se intensificava, os rostos se mantinham acesos.



- "I find it hard to tell you, I find it hard to take... when people run in circles..."



Ele agora pedia com uma gentileza de olhar que ela se calasse e ouvisse, sem palavras - coisa que prontamente entendeu e aceitou como se fosse apenas da dúvida a verdadeira arte de se confiar.





- "It's a mad world. Very mad world."



As estrelas faziam questão de observar e perguntar umas às outras o que seria aquilo que brilhava como uma delas tão longe dali, por detrás de um véu tão sombrio quanto aquele inteiro por onde andavam... Alguém aprendera a confiar, sim, e seria tão intensa quanto obscura aquela vida de fé cega - finalmente alguém confiava cegamente nela.

Friday, April 17, 2009

José


Agora sim.


Agora era a hora, pensava bem. Se caso quisesse perder a virgindade agora seria a hora. Não porque ser virgem propriamente era ser uma constante em sua vida, mas porque ser virgem de soluções era.


Ele se levantou, calçou as meias quase imundas e os sapatos esburacados. De frente para o espelho percebeu a barba mal feita e preferiu deixar por isso mesmo. Arrumou a gola da camisa e botou o paletó por cima, mesmo sem gravata se sentia mais formal o que significaria para o seu cérebro meio usado que estava mais apto a participar de uma 'discussão'. Sendo aquilo o que fosse. Não tinha medos ou ansiedade por estar a caminho de algo que nunca tinha presenciado e não seria diferente vindo dele, esse ser tão despreocupado com o viver em si.


José se recolheu um instante, pensou que talvez devesse por gel no cabelo. “Ah sim porque gel deixa os côro vistoso”, e foi-se vestido para matar – mais neurônios.


No caminho enquanto caminhava apressado como sempre na direção do ponto de ônibus, um carro imenso e com vidros escuros passou por uma poça d'água deixando todo o vestuário de José encharcado, para não dizer imundo. O querido continuou como sempre, sem perceber muito ou ligar muito para o acontecido, aquilo acontecia com ele. O cabelo ainda estava em perfeito estado em se tratando de um cabelo duro feito um cabelo que fica todo grudento com gel comprado na farmácia por dois contos. José sabia gastar só com o que precisava e hoje ele saberia gastar as cordas vocais com exatamente aquilo que precisava: dinheiro. Pelo menos era nesse mesmo fim onde os pensamentos do nosso querido José sempre caíam.


José subia no ônibus enquanto percebia que o mesmo estava para lotar. Se enfiava devagar entre os corpos que como o dele estavam ali para ir para algum lugar e se encaminhou até o senhor cobrador que recebia os dois reais em moedinha e fazia questão de contar uma por uma, já que vinham de José. Ele era conhecido por ter burlado o sistema algumas vezes, não por safadeza mas porque precisava escolher entre comer aquele p.f. na esquina do serviço ou pagar a condução. José não achava lugar para sentar, mas já estava acostumado. Prendeu a pastinha gasta que havia ganho do compadre Joaquim que usava em ocasiões especiais para parecer mais importante entre as pernas e colocou as duas mãos calejadas no cabo de metal que esta acima da sua cabeça, de frente pra ele a janela e entre ele e a janela duas senhoras gordas tentavam dividir o acento. José procurava olhar para fora com medo de encarar as senhoras que de tão gordas eram assustadoras em sua abundância de carne. Isso fazia José pensar em comida, a barriga roncava.


José ia. Imóvel dentro do ônibus ele ia.


Ao chegar onde José queria que chegasse, ele alcançou modestamente sua pasta entre as pernas e saiu pelas portas que abriram violentamente, nem mesmo tinha tocado os pés incertos no asfalto imundo e o ônibus arrancava feito um desesperado para não ter que parar no sinal vermelho logo a frente. José não percebia mas era um sortudo por não ter tido o pé arrancado fora nessa brincadeira.


As casinhas eram todas meio cinzas. Um mal de São Paulo quando a cidade não está pronta para turista ver. José caminhava atento aos números que pareciam ficar cada vez mais difíceis de serem percebidos, seus olhos cheios d'água por causa da fumaça da rua. José notava que enquanto caminhava sua barriga parecia roncar ainda mais. “Ah, mas vai que lá tem algum trocinho pra beliscar, não vou gastar o dinheiro da condução de vorta nisso”. José queria chegar logo lá.


Finalmente, depois de muito caminhar o número 2443 aparecia em uma esquina entre uma porta e outra de madeira gasta e imunda em um pequeno prédio cinza e com a pintura toda gasta de anos de descuido. Bastava agora achar uma campainha, coisa impossível. Procurou, olhou, tentou ate ver se alguma janela estava aberta, mas nada encontrou. Decidiu então bater à porta e o fez, assim que terminou alguém prontamente abriu a abriu do lado direito assustando José que tinha dado os três toques tímidos na porta do lado esquerdo. Um senhor mais velho e com cara de desconfiado o chamou para entrar. Mas antes perguntou a José:


-Seu nome, meu filho?


-José, sinhô.


-Entre.


Ele entrou.


-Sente-se aqui, já volto já.


O senhor apontou para um banco com almofadas surradas encostado numa parede cheia de marcas de dedo. No teto uma única lâmpada estava agarrada a um fio elétrico que com o vento trazido lá de fora e com José, balançava de um lado para o outro deixando a luminosidade do lugar toda comprometida por causa de tal acontecimento. Numa mesa que parecia bamba, também bem descascada e triste, uma mulher mais jovem que José organizava alguns papéis e mal havia notado a presença do pobre ali, ele tentava sorrir assim que ela parecia olhar pra direção dele, mas não parecia receber resposta. José continuava calado observando a lâmpada que aos poucos parecia voltar a sua imobilidade não natural. Logo notou um relógio que marcava cinco para às seis. José respirava. Profundamente.


Algum tempo depois o senhor aparecia na fresta de uma porta que se abria ferozmente atrás da dúbia secretária rechonchuda, seu olhar era claro e dizia “venha cá”, José se levantou rapidamente e caminhou até sua direção. Estava com tanto medo que precisava respirar ainda mais afobadamente para que conseguisse manter-se são, sem nem mesmo entender o que estar são significava. O senhor desconfiado fechou a porta acompanhando José até uma cadeira qualquer que ali estava e foi se sentar de trás de sua mesa bem parecida a da moça na tal recepção. Seus olhos inspiravam algum terror.

Então me diga, o que quer?


-Bom, sinhô... É o que já havia dito pro rapaz que me parou na rua. Tenho dois filhinho e não tenho muito da onde tirar as coisa que eles precisa.


-Sim, e de quanto estamos falando aqui?


-Num sei não, sinhô.


-Eu posso conseguir dois mil reais...


-Dois mir, sinhô?


-Dois mil. É tudo o que eu consigo.


-...


-É pra hoje, meu querido.


José se enchia ainda mais com precipitação, seus olhos se afogavam em água novamente e suas mãos começavam a espremer com força a pasta surrada que agora descansava sobre seu colo. Os lábios pareciam querer produzir algum movimento, mas a sensatez para tal não servia os propósitos de José. Ele cedia. Dizia que sim com a cabeça e por um instante apenas via o rosto de sua esposa e das duas crianças que estavam a sua espera naquele barraco de cimento que mais parecia polvilho azedo. Seus olhos estavam cheios de esperança, mas a dor que essa espera o trazia era maior do que aquela que ele suportaria ali, naquele mesmo prédio de paredes engorduradas e lâmpadas agitadas. Estava certo disso e estaria até o fim.


José enfrentaria tudo de barriga vazia.






Quatro da manhã, segunda-feira de uma semana cinza, um rapaz de barba mal feita e olhos preocupados bate à porta de um barraco de cimento. Uma mulher no alto de seus trinta anos que não conseguia dormir há dias preocupada com o paradeiro de seu marido aparece e ao ver que aquele não era José, deixa escapar uma lágrima azeda do canto do olho esquerdo.


O rapaz a entrega um envelope, puxa o boné para frente cobrindo parte do rosto e caminha para longe. Dentro do envelope notas frescas como fresca era a manhã.


Dois mil reais.


Numa nota escrita à mão um recado: José Relicário Norberto da Silva nos pediu que esse dinheiro fosse entregue à senhora Maria Neide Norberto da Silva e seus filhos.


Passar bem.




Tuesday, August 12, 2008

sobre a compreensão


Ela queria ser novamente enaltecida.

Era de costume, tudo que fazia, fazia pra que ele percebesse. Ela não tinha nem como tentar de outro jeito porque já estava tão impregnado nela essa vontade exarcebada de querer fazer dele um homem feliz que já havia esquecido do propósito original. Ele não a entendia, tentava, mas não conseguia. Todo dia eles acabavam em algum bate-boca que não tinha final feliz, era mesmo um terror, ela pensava, "nada funciona com ele" porque ela fazia tudo para deixá-lo feliz e feliz ele não o era, mas mal sabia ela que não era culpa de ninguém, era fato.

Os dois se amavam num amor quase sem tom, sem misericórdia e sem compreensão. De fato. Ela queria beijo na boca de língua pesada, molhada com gosto de desejo e mão também pesada no pescoço. Ele queria bitoquinhas pra não molhar muito a boca. Logo de cara assim parecia que ele era nojento, e isso é o que ela dizia pra ele em algumas das muitas brigas dos dois, mas ele não era não. Ele entendia o corpo dela de um jeito ímpar e ela o dele, mas constantemente ela deixava pra lá pra novamente fazê-lo feliz, o que é claro não acontecia.

Os dois trabalhavam muito, ele era entregador de pizza e cuidava de cachorros, ela era analista de sistema em uma firma de computadores. Sim, ela ganhava mais que ele e mesmo assim fazia de tudo na casa, limpava, cozinhava, lavava roupa, organizava tudo. Ele nunca percebia que ela fazia tudo isso pra chamar a atenção dele e era por isso também que ela nunca estava feliz.

Os dois tinham um filho que apareceu no momento certo porque os dois planejaram
juntos tê-lo, mas ninguém sabe como porque nunca se entendiam. O nome dele era esquisito, Ronix. O pai do Ronix não queria esse nome horrível, mas ela decidiu e pronto. Vai entender!

Os dois não se entendiam.

Ronix era um menino muito feliz e completamente idolatrado pela mãe e meio deixado de lado pelo pai. Não que o pai não o amasse, pelo contrário, sua forma de mostrar o amor que ele tinha sempre foi ... vamos dizer que distante, do mesmo jeito que não gostava de dar beijos lentos e suculentos em sua mulher.

Ah! Os dois nunca se casaram de fato, moravam juntos há anos em uma casa que pertencia ao pai dele. Ela sempre querendo agradar o marido... Menos na hora de escolher o nome do filho "é mais meu que seu" ela pensava, "então o nome também sou eu que escolho". Os dois não chegavam a conclusão nenhuma.

Logo de cara numa manhã fria de segunda-feira ela acordou doente. Ronix se levantou depressa de seu meio cama e meio berço e veio dar um beijinho na mamãe, o pai cuidava dela trazendo chás e as bolachas favoritas dela, entre um gole e uma mordida ela soluçava por causa do choro. Estava com febre e chorava e ele não entendia porque. Se cansando do barulho infernal dos soluços da mulher, ele perguntou porque ela não parava de chorar pra poder melhorar rápido, prontamente ela começou a vomitar tudo que estava entalado em sua garganta há tanto tempo.

Disse num meio berro, meio choro que tudo que fazia era pra deixa-lo feliz. Tentava agrada-lo de todas as formas e nunca conseguia e que até deixava ele fazer amor e beija-la da forma que ele queria pra que não houvesse nenhum sentimento de desanimo da parte dele. Disse também que não aguentava mais e que sabia até porque estava doente, porque ele não a compreendia. Depois de toda essa verborragia ele se levantou da cama e andou em círculos no quarto olhando pro nada como se ele fosse tudo. Ela continuava chorando - quanta lágrima tinha naquela mulher! - mas agora o som era muito mais suave. Ele voltou à cama e se sentou ao seu lado e simplesmente disse isso:


"eu achei que estivesse fazendo tudo pra te fazer feliz e também nunca entendi porque você continuava assim."

eles nunca se entendiam.



***

Thursday, June 05, 2008

Sobre o querer

Hoje passei um dia de dona de casa, um dia azul.

Lá fora estava cinza, como cinza eram as nuvens carregadas de chuva pesada que acabou não caindo como previam todos os jornais, de todos os canais que zapeei das dez da manhã até o meio-dia... Sim, pessei essas horas trocando de canais de notícia, fazendo cafés e bagels, arrumando o quarto e a sala, enquanto colocava algumas roupas para lavar. Meu marido estava ocupado ajudando a irmã em sua casa/rancho que mais parece o fim do mundo do que qualquer outra coisa, eu deixei que fosse em troca de me deixar sozinha para não fazer nada, coisa que não acontecia em uns bons meses. Essas últimas semanas de mudança me irritaram um pouco, claro! Mudanças irritam e a falta de ter qualquer coisa que me traga sensação de lar me arranca o chão. Sei que isso soa irônico já que tenho mudado muito de cidade -e de país! - nesses últimos anos, mas acho que sou assim contraditória mesmo.

Enquanto o dia ia passando ia me atarefando mais. Limpando os tacos de madeira do chão de todos os cômodos, organizando as roupas que até pouco não tinham lugar próprio e limpando a cozinha que tem algum mecanismo de auto-sujeira, não é possível!

A minha amada Adélia também estava na casa/rancho da minha cunhada então estava muito na minha, assistindo Black Crowes na televisão, enquanto limpava, tomava banho, comia e conversava com amigos na internet. Fiquei cansada logo de ficar na frente do computador - coisa rara - e fui dar-me a procurar maneiras de deixar minha mesa de trabalho mais aconchegante. Tenho essa coisa com aconchego, acho o "item" mais importante de qualquer canto que seja seu. Trouxe alguns de meus livros favoritos, fotografias, um pequeno candelabro que adoro, uma caixinha de fósforo com uma foto de pin-up que encontrei nas coisas do meu marido, meus fones de ouvido, minha bandeirinha do Brasil e meu dicionário. Organizei tudo da melhor forma que encontrei, mas ainda faltava algo. Mexi, remexi, procurei mais itens e ainda não encontrava o que faltava. Desisti por hora e fui terminar de limpar o estúdio e a entrada, ventava muito então desisti. Tentei assistir Black Crowes sem fazer mais nada ao mesmo tempo e algum bicho me picava os pés, precisava me mexer.

Fui tentar ajeitar os livros na mesa de uma forma que ficassem em pé, sem cair, mas não tinha apoio. Aquilo me frustrou absurdamente e então lembrei-me de que era apenas algo pra me ocupar, nada mais, nada menos. Continuei com meus afazeres de roupas a lavar e secar e dobrar e encabidar quando ouvi a campainha.

Meu marido chegava com os braços carregados de coisas, a cadela vinha com a coleira arrastada o seguindo. Enquanto largava tudo no chão de qualquer maineira eu ia catando e arrumando lugar e uso pra tudo que trazia, os últimos dois itens eram dois tijolos encapados com um papel daqueles de encapar caderno de criança, coloridos, os dois do mesmo jeito e assim que os vi gritei alto assustando os dois: é isso! Parece que a avó dele gostava de encapar coisas absurdas...

Levei os tiojolos para minha mesa, arrumei os livros todos em pé e coloquei um tijolo em cada lado, perfeitamente apoiando cada um dos últimos livros da fileira, os completando incrivelmente.


Às vezes parece que não precisamos querer demais algo, apenas desejar secretamente que aquilo aconteça.


***



Monday, March 26, 2007

O barulho na janela...

As paneladas nas janelas ainda não começaram, mas estão prontas para dar o primeiro passo para que seu dia se transforme em algo intrigantemente revoltante. Porque raios nos sentimos tão mal quando percebemos onde vivemos? É fácil culpar tudo e todos a sua volta, as pessoas que dirigem os super carros com buzinas mais irritantes e altas do que sons de ultra-espaçonaves que alcançam marte, as criancinhas nada inocentes que entram e saem das escolas soltando gargalhadas mais altas que o som de um show do Roger Waters e arrotando em vias públicas, xingando o colega que veio com uma franja "meio emo" ou que simplesmente se sentiram ameaçados por um motorista não muito atento que não lembrava que "crianças" não olham para os lados ao atravessar, os vendedores de paçoca de piracicaba, os transeuntes que xingam os motoristas de ônibus, os carros de polícia que passeiam com suas sirenes ligadas só porque é mais charmoso, o barulho de britadeiras, martelos e de material de construção constante mente sendo jogado de um lado para outro, formando um pó cinza e pesado que você respira e dá graças a deus por ainda poder viver para respirá-lo no dia seguinte...
Enfim, é sempre bem fácil culpar o mundo inteiro porque o que há de mais difícil é encontrar uma boa razão para achar que você contribui para esse caos em que vive. E você contribui.
Na pior das hipóteses você contratou uma equipe para arrancar as placas do seu estabelecimento pois nosso queridíssimo Kassab resolveu roubar de quem luta pra sobreviver em seus pequenos negócios, tirando a única estratégia de marketing que tinham: suas placas.
Ou porque você também acabou de adquirir aquele último carrão com rodas gigantes para passarem por cima dos carros velhos e lentos que rondam ao seu redor ou porque você também tem um diabo que foi pra escola hoje cedo e que vai sair dela, fazendo muito, muito, muito barulho para se auto-afirmar como cidadão do mundo.
É.
Não tem jeito... a gente gosta de sofrer.
Mas então, qual seria solução?
Tem dias que não paro de pensar e não chego a nenhuma conclusão, talvez porque se existe alguma solução eu teria que tirar a minha bunda do lugar e realmente fazer algo. E o que seria fazer algo? Em relação a que? A quem? Pra que propósito? Em que contexto e âmbito? Por razões políticas, morais, religiosas ou artísticas?
A gente acaba se metendo em grupos de discussão, em cursos, círculos e equipes e nunca realmente nos empenhamos em grandes coisas. O mundo está cheio de coisas pra se fazer e a preguiça é o pecado capital mais visado por nós, humanos do novo milênio.

Humanos equipados com a incrível habilidade de se esquivar de suas responsabilidades.

Não digo que você se esquiva das suas, mas digo que uma grande parte da humanidade se esquiva sim, foge! Com asas nos pés, verdadeiros Aquiles da terra vermelha, procurando "algo a mais" ou talvez se esquecendo do que deveriam fazer como pessoas, como seres que realmente NÃO conseguem viver sozinhos. Nenhum homem é uma ilha. Ninguém nunca ouviu essa frase ou não a assimilou.

É isso!

Cheguei a minha conclusão.

Faltou você também chegar a sua. Afinal vivemos em sociedade... ou não?

Saturday, September 23, 2006

uma prosa prum dia de amanhã...

O cheiro do cabelo molhado dá o tom no chuveiro. Gosto de sentir vibrar nas paredes o baixo certeiro na música que vem do som do quarto. O som que precede o fim é o mesmo que cria o clímax, eu já saquei isso há um tempo... o tempo lá fora não ta bom não. Ta pesado de um jeito que só eu sei, mas é bom tempo pesado, desprende das nuvens a dor que rendia meios seios, agora ela ta em tudo... como é egoísta isso, dividir a dor. Como eu perdi tempo com isso aqui! Só o deus do rock`n`roll sabe o que eu sofri, porque ele sofreu como eu. Sentado na sala de estar de uma casa despedaçada e com cheiro de botijão de gás. Tinha uma época que eu achava que ser diferente era condição necessária pra se existir. Agora eu não sei não. Acho que eu ainda não existo. A vida bate perna lá fora e aqui dentro deixa rastro de coisa bacana. De foto preto e branco e de sépia na varanda do vizinho. Deixa no piano na sala o som tortinho que chega com a noite do sábado, que dizem por aí que é altíssimo o número de suicídios nesse dia tão perdido... tenho pensado muito nisso, não no suicídio, nos índices. O que é um índice? É a contagem de dor por metro quadrado? Que engraçado isso tudo... o frescor na minha boca não vem da menta na pasta de dente, vem da minha boca fervendo de tudo que é vida que bate perna lá fora. Meus olhões no espelho dão medo às vezes. Meu pai dizia que eu precisava de ajuda psiquiátrica... minha mãe me diz que isso tudo é assim mesmo... “é a idade, docinho...”. eu não sei o que eu digo a respeito de mim mesma, acho que to muito perto pra saber, mas sei que não é o tempo não... não retiro nada do que disse, não me despeço de nada do que sinto. Sou um ser-humano com faro aguçado para o desastre e eu me desagrado ao compreender minimamente isso. O tempo lá fora ta pesado. Que bom. De certo eu estarei muito bem muito em breve e daí, vou rir de você que ficou esperando meu fim. Ta fechado? Vamo noutro lugar. Ta fechado também? Ah... o que é que eu falei pra você? Ta tarde, benzinho. Ta tarde pra burrico. O tempo ta pesado aqui dentro, e é bom. Eu sei a dor que don Toninho sentiu quando descobriu que nasceu pra sofrer. Deus! Eu acho que o deus do rock`n`roll também entende o Toninho. Deve até se parecer com ele, corpo pesado, como o tempo aqui dentro, como o tempo lá fora, como o tempo todo, todo dia, toda hora. Eu sei de uma coisa que acho que a Adélia não sabia, o mundo ainda não ta preparado pra doçura. E que que eu to fazendo aqui? Se eu sou assim, toda doce feito torta de limão azeda que tem um doce só dela... o que eu to fazendo afinal? Experimentado a dor na janela...

Monday, December 12, 2005

sonho X realidade

Intencionalmente nós recriamos situações em nossa vida, queremos recolocar novas caras aos bem conhecidos caminhos. Mas ter a coragem e a força de levantar e não só dizer mas agir e saber que "dessa vez tudo será diferente" é o mais difícil. Não quero colocar aqui dicas para te dar um "empurrãozinho" ou te dar aquela sensação de que é tudo rosa e que no fim as coisas vão dar certo, porque essa não é a minha experiência real. Não quero tão pouco, extrair de minha vaidade momentos de êxtase e de conquistas, porque também não vejo nada em minha vida como uma grande conquista, mesmo tendo pessoas ao meu redor que ficam maravilhadas com alguns acontecimentos que marcaram minha existência. Acho que o ser-humano mediano está fadado a falta de vergonha na cara. Digo ser-humano mediano com uma certa culpa pois me coloco nesse emaranhado populoso. Credo! Como tem gente que não sai do lugar, não dá uma guinada, não sonha!
Bom então vamos dividir esse povo! O emaranhado mediano se divide agora e é criado um subconjunto de meio-medianos: aqueles que sonham. Então posso dizer que sou uma dessas. Sonho. E entre esses, alguns passam para a próxima rodada, se jogam no grupo daqueles que conseguem. No grupo dos que brilham. Não pense que estou querendo fazer com que algumas pessoas se sintam más ou incapazes de se realizarem, não é isso! Estou dizendo que existem pessoas para todos os gostos, formatos, tamanhos e ações.
Voltando ao assunto, estou muito pensativa esses dias, procurando razões para andar. Procurando movimentos alheios à minha vontade para poder passar para o próximo grau, o próximo passo dourado. Sinto que esbarramos com pessoas ou fatores que querem sempre nos derrubar mas repito para mim mesma que tudo isso é besteira, afinal fomos criados com corpos e mentes para chegarmos à qualquer lugar que queremos.
Afinal, imagine se o primeiro macaco-homem não tivesse frio e vontade de criar um foguinho para se esquentar? Imagine o que aconteceria se os homens não quisessem descobrir terras mais propícias para o plantio, para se assentarem e construírem vilas e casas com mais conforto e mais possibilidades de criarem seus filhos? Afinal, o que seria do der-humano se não houvessem vontades e sonhos?
Também sei que o sonho pode matar. O sonho de um homem por poder e brilho matou milhões de judeus, negros, ciganos e índios...
Mas o sonho também pode curar. A vontade de um homem de ver seu povo novamente tratado com dignidade acabou com a escravidão, pelo menos legalmente...
Os sonhos e as pessoas que sonham tem o poder da consciência, mais do que qualquer mortal. Conseguem desenhar no éter as nuances de suas vitórias emocionadas e racionais e então podem buscar na terra e com suas próprias mãos as ferramentas necessárias para chegar ao seu objetivo. O que fará desse sonho algo bom ou ruim é medido não pela sociedade, mas sim pelo que há de mais puro e comum onde há um grupo humano: amor. O amor é o melhor termômetro.
Cada vez que entro nesse assunto me atrapalho. Não sei explicar de fato o que vem a ser o amor. Só sinto. E parece uma loucura, mas ele está lá quando há bondade e não está (ou está timidamente) quando há a maldade.
E alguém vem me dizer "certo e errado são relativos"... sim, eu sei!
Mas bom e ruim não são.
O que faz bem e mal é real, tangível, óbvio.
E então passo mais uma vez ao meu momento pensativo. O instante em que sei que algo está apra acontecer mas que só poderá liberar o fogo se eu der a esse sonho alguma ferramenta, um fósforo, dois pauzinhos ou até duas pedras!
Pense nisso!