Ela, cansada havia parado de chorar finalmente. Com as mangas compridas da camisa xadrez que usava por cima da camiseta larga, enxugava as faces com a mesma calma que não havia sido levada em consideração antes de chegar ali. Seu corpo todo se debruçava sobre aquela mesa de madeira gasta, a mesma que observara aquele mesmo céu de noite cinzenta há tantos anos - talvez décadas - e onde o cachorro cansado da chuva e da falta de atenção momentânea se escondia. Ela percebia as letras cravadas na madeira escura, tranquilamente traçava com o indicador o caminho que o canivete percorrera. Uma lágrima ou outra escapavam enquanto seu olhar atento desarmava sua intenção, deixava com que seu choro agora miúdo se revoltasse por si próprio.
Ele a observava do outro canto da varanda remoída. Costas apoiadas contra a parede de relevos incertos, braços cruzados, presença indescritível dentro da vida daquela que ali se revelava frágil, esplêndida. Ele evitava olhar diretamente para ela, invés disso procurava alguma coisa no céu infindável para admirar - o que era difícil tamanha a nebulosidade já reconhecida naquela cidade. Seu olhar esverdeado não reconhecia muito mais do que sua falta de força, já havia lutado com todas as armas que havia aprendido a furtar pelo caminho, tinha o peso de sua vida vivida em alguma nota sustenida sem muito conhecimento do porquê e não poderia tentar em vão ajudá-la, e não era à toa que ela sabia em suas entranhas remexidas, em sua pele muito gasta que ele não poderia mudar nada e nunca tentaria...
Não era por isso que ela chorava.
Ele respirava a umidade que já estava no ar, o relento que avisava que chuva estava por vir enquanto as folhas das árvores imóveis sussurravam canções familiares em um silêncio tão almejado por aquele pedaço de terra demarcado por algum engano no nome... dele. Ela finalmente se sentava sobre a mesa, mexia com as mangas agora molhadas, confusa olhava em volta a procura de qualquer coisa que tirasse da sua cabeça a única coisa que não poderia ter... Ele largava os braços ao lado do corpo, trazia o olhar de volta a ela que supostamente deveria estar bem longe dali.
- Você lembra dessa música?
Qualquer coisa que ele havia dito não fazia muito sentido, mal ouvia qualquer coisa ao fundo muito menos uma música.
- Que música?
O sorriso escondia a verdade por detrás de suas lentes cor de marfim.
- Ah, não me diga que não ouve a música?
A inocência temporária que a censurava não era tão provisória quanto parecia ser já que ele a recriminava por de fato estar sempre tão cegamente em dívida com ele que finalmente nesse instante caminhava à sua direção com o olhar de quem não teme e simplesmente confia.
Tomando sua mão ainda coberto daquele escudo de marfim e agora tão perto que ela conseguia perceber os olhos cansados, a musculatura e pele tão vividas que envolta de um crânio tão pesado davam estrutura aquele homem feito do avesso. Um braço envolta de sua cintura, uma mão segurando a outra que sobre a dele parecia tão delicada...
- Essa música que eu vou dançar com você...
Sob mil olhares escondidos por trás de um véu cinza e sombrio, eles tomavam a quadra como seu salão particular, a chuva aguda começava a cair e em seu ouvido atento ele sussurrava a canção que só se ouvia mesmo quem pudesse acreditar:
- "And I find it kinda funny... find it kinda sad..."
A sensação de conforto e súplica tomava conta do peito dos dois que agora um de frente para o outro poderiam dividir qualquer coisa que fosse juntos pela primeira vez em tanto tempo.
As duas vozes por fim cantavam juntas:
- "The dreams in which I'm dying are the best I've ever had..."
A chuva se intensificava, os rostos se mantinham acesos.
- "I find it hard to tell you, I find it hard to take... when people run in circles..."
Ele agora pedia com uma gentileza de olhar que ela se calasse e ouvisse, sem palavras - coisa que prontamente entendeu e aceitou como se fosse apenas da dúvida a verdadeira arte de se confiar.
- "It's a mad world. Very mad world."
As estrelas faziam questão de observar e perguntar umas às outras o que seria aquilo que brilhava como uma delas tão longe dali, por detrás de um véu tão sombrio quanto aquele inteiro por onde andavam... Alguém aprendera a confiar, sim, e seria tão intensa quanto obscura aquela vida de fé cega - finalmente alguém confiava cegamente nela.

